É possível esquecer um trauma de infância?

É muito comum que, ao compartilharem suas histórias, os sobreviventes de abuso sexual, às vezes, descrevem esquecer ou reprimir memórias de seu abuso por anos, até décadas, antes que as memórias ressurjam, geralmente na forma de flashbacks dolorosos.

Esse fenômeno de esquecer memórias dolorosas é tecnicamente conhecido como “dissociação”. É mais comum em pessoas que sofrem trauma quando crianças, embora também possa acontecer com adultos. Na verdade, não é “esquecer”, porque o cérebro guarda essas memórias. Mas o cérebro processa essas informações de forma diferente de outras experiências comuns. Existem muitos sistemas diferentes no cérebro que se lembram das coisas, e eles se lembram delas de maneiras diferentes.

O que acontece no cérebro em dissociação é que quando o sobrevivente se lembra de uma memória traumática, é como se seu eu somático, ou corporal, estivesse se lembrando de algo que sua mente reflexiva não sabe. As experiências comuns são processadas em memórias reflexivas normais, no hemisfério esquerdo do cérebro, que é responsável pela linguagem e lógica e nos dá palavras e ideias para dar sentido às nossas experiências.

Quer ver um exemplo? Exames de ressonância magnética apontam as áreas do cérebro que se iluminam durante tipos específicos de memórias e quando a pessoa experimenta um flashback de um evento traumático, como abuso sexual, o hemisfério esquerdo desliga e não se ilumina durante o exame, ao contrário do hemisfério direito que processa sentimentos e sensações corporais. Isso sugere que os sobreviventes do trauma do abuso sexual não têm linguagem ou outras ferramentas de “símbolo” para processar a experiência ruim. Esta é a maneira do corpo de lembrar algo, e todos os cinco sentidos são incorporados.

Diante disso, surge a dúvida sobre o que faz com que os sobreviventes se lembrem novamente dos abusos que sofreram? A neurociência responde! A reposta está nos gatilhos traumáticos. Os sobreviventes podem ver seu agressor, cheirar um aroma relacionado, ouvir um som que se conectam ao abuso, experimentar algo que lembra o trauma, que acionam as memórias intrusivas ou flashbacks (lembranças de maneiras muito fragmentadas) o que pode ser assustador e perturbador muitas vezes. Os gatilhos podem ser diversos e estar em toda parte, mesmo que não seja claro e consciente para o sobrevivente.

A boa notícia é que tudo isso tem tratamento! A psicoterapia é a melhor forma de ajudar um sobrevivente do trauma do abuso sexual. Entretanto, para que haja eficácia no tratamento de sobreviventes, é preciso um relacionamento bom e forte entre terapeuta e sobrevivente. Um profissional especializado no trauma do abuso sexual, que compreenda os efeitos do trauma na vida do sobrevivente e, que principalmente, conheça ferramentas e técnicas que diminuam a sobrecarga de desconforto que os sintomas de dissociação acarretam. Em resumo, um profissional que saiba o que está fazendo!

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Eu sou a Jeniffer Tavares, sobrevivente do abuso sexual. Psicóloga e Especialista no Trauma do Abuso Sexual. Conheça os meus cursos e formações:

CITAS – a Formação em Cuidados Informados no Trauma do Abuso Sexual

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